Azul, misterioso, quase mágico. Ele vivia dentro de um aparelho esquecido nas ruínas de uma clínica abandonada, à espera de alguém que o encontrasse. Por muito tempo, ninguém pareceu se lembrar de que ele estava ali. Até que, um dia, dois homens apareceram.
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Encontraram o aparelho. Levaram-no consigo. E, sem saber, abriram a primeira página de uma grande história.
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O aparelho foi parar em um ferro-velho. Entre peças velhas, metais retorcidos e objetos sem valor aparente, o pó azul revelou seu segredo mais bonito: brilhava.
Parecia guardar um pedaço de estrela. Uma luz pequena, extraordinária, dessas que fazem a gente esquecer o mundo por alguns instantes. O dono do lugar se encantou. Mostrou o achado a outras pessoas, compartilhou o tesouro com quem estava por perto.
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O pó atravessou portas, quintais e casas. Passou de mão em mão, como passam as coisas que despertam curiosidade. Adultos e crianças se aproximaram. Entre elas, uma menina de seis anos.
E o pó continuava brilhando.
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Mas, algum tempo depois, as pessoas começaram a adoecer.
O que antes parecia extraordinário se tornou estranho. Vieram os sintomas, o medo, as perguntas. Havia alguma coisa errada, mas ninguém sabia explicar exatamente o quê.
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Até que uma mulher desconfiou daquele material. Reuniu o que pôde, pegou um transporte coletivo e levou uma parte às autoridades, e pediu ajuda.
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Primeira página do Correio Braziliense durante a cobertura do acidente, 1987. Reprodução/Correio Braziliense
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O segredo foi revelado.
Aquele pó tinha nome: césio-137.
E não havia nada de mágico nele.
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Equipe com capuzes, máscaras de gás e roupas de proteção. Origem a confirmarEquipes de macacão e capuz num terreno em descontaminação. Origem a confirmar
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Então chegaram os homens e as mulheres que precisavam enfrentar o inimigo invisível.
Vestiram roupas especiais, carregaram aparelhos de medição, examinaram casas, objetos e pessoas. Isolaram áreas, retiraram materiais contaminados e trabalharam para impedir que o perigo se espalhasse. Era preciso descobrir onde o pó havia estado, quem tinha entrado em contato com ele e como conter uma ameaça que não podia ser vista a olho nu.
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Tambores numerados para rejeitos, 14 de novembro de 1987. Lourisvaldo de Paula/Agência Estado
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A cidade precisava ser protegida. Os rejeitos precisavam encontrar um destino. As pessoas precisavam de respostas.
E, pouco a pouco, a emergência foi sendo contida.
O perigo havia sido identificado. Os heróis tinham chegado. A cidade começava a respirar outra vez.
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Fim.
A quebra do conto
É assim que a história do césio-137 costuma chegar até nós. Um aparelho abandonado, dois homens, um brilho misterioso, uma menina que virou símbolo, heróis de macacão e uma cidade que se reconstrói. Tem começo, meio e fim. Cabe numa aula de história, num episódio de série, num vídeo de um minuto.
Quase tudo nela aconteceu. Quase nada nela está inteiro.
dois homens
Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira
Os dois homens se chamavam Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira.
o dono do ferro-velho
Devair Alves Ferreira
O dono do ferro-velho era Devair Alves Ferreira.
uma mulher
Maria Gabriela Ferreira
A mulher que desconfiou do pó e levou parte dele às autoridades, de ônibus, dentro de um saco, era Maria Gabriela Ferreira, sua esposa.
a menina
Leide das Neves Ferreira
A menina era Leide das Neves Ferreira, sobrinha do casal, filha de Lourdes e de Ivo, irmão de Devair.
Leide e Maria Gabriela morreram em 23 de outubro de 1987 e foram enterradas juntas.
Nenhuma dessas pessoas foi um personagem.
Tinham trabalho, casa, vizinhos e planos antes de setembro de 1987. Depois, passaram a ocupar um lugar fixo numa narrativa que se repete há quase quatro décadas: os que pegaram, o que abriu, a que morreu, a que avisou.
O ditado popular diz que quem conta um conto aumenta um ponto. Cada vez que uma história passa adiante, alguém acrescenta um detalhe, corta outro, troca a ordem, escolhe por onde começar. O césio-137 foi contado pela imprensa que cobriu a emergência, pelos técnicos que a contiveram, pelos governos que administraram suas consequências, pelos tribunais que julgaram os responsáveis, por cineastas, escritores, artistas e, agora, por criadores de conteúdo que talvez nem tivessem nascido quando a cápsula foi aberta.
imprensatécnicosgovernostribunaiscineastasescritoresartistascriadores de conteúdo
Cada um acrescentou o seu ponto.
Isso não quer dizer que as versões sejam falsas. Uma narrativa pode ser feita só de fatos verdadeiros e, ainda assim, deixar gente de fora. Pode explicar com precisão como o material foi descoberto e não dizer nada sobre o que aconteceu com quem o tocou. Pode reconstituir os primeiros dias com detalhes e terminar quando a emergência acaba, como se a história acabasse junto.
Em 2026, essa disputa ganhou escala. Em março, a Netflix lançou Emergência Radioativa, minissérie que levou o acidente a milhões de pessoas em dezenas de países. Na tela, nenhum dos nomes acima aparece: a produção trocou os nomes das vítimas por nomes fictícios. “Nem perto da realidade”, resume Lourdes, a mãe de Leide. “Mas trouxe visibilidade.” No mesmo ano, as pensões das vítimas foram reajustadas pela primeira vez em anos. Além disso, a Câmara de Goiânia aprovou a criação de um memorial, vídeos com medidores de radiação viralizaram nas redes sociais, e um ator da série admitiu que não conhecia a história.
Esta reportagem parte de uma pergunta: quem conta a história do césio-137 nas últimas quatro décadas, e o que acontece com as pessoas de verdade, quando ela é contada por outros? Para responder, ouviu vítimas e familiares, uma jornalista que cobriu o acidente desde o primeiro dia, um historiador, a direção do centro que acompanha os atingidos, a Comissão Nacional de Energia Nuclear, o Corpo de Bombeiros, um criador de conteúdo e moradores de Goiânia que conhecem, ou não, o que aconteceu na própria cidade. Também analisou a cobertura jornalística de 2026, um inventário de obras culturais produzidas desde 1987 e publicações nas redes sociais.
Não existe aqui a ambição de encontrar a versão definitiva, capaz de encerrar as outras. O que se procura é olhar para as versões que circulam e perguntar quem aparece nelas, quem tem autoridade para narrar e quem ficou sem voz.
Porque, às vezes, o que some de uma história não é um fato. É uma pessoa.
O livro termina com um ponto final. Para quem viveu o acidente, ainda não há última página.
02
Capítulo 02
Antes de serem personagens
“Eu tinha 11 anos, mas parecia que eu tinha 90”
O lote onde ficava a casa de Roberto, no Setor Central de Goiânia, é hoje um retângulo de concreto. É ali, sobre a laje que cobre o primeiro ponto de contaminação, que as vítimas se reúnem nos eventos de memória.
FOTO
FOTO: Lote da Rua 57: o retângulo de concreto onde as vítimas se reúnem, 2026 — TODO
Foto da autora, 2026
No encontro em homenagem ao aniversário de 39 anos do acidente, em setembro de 2026, Fábio Mattos Capuzzo olha para um canto específico: foi por ali que o aparelho entrou.
RETRATO
RETRATO: Fábio Mattos Capuzzo no lote da Rua 57, encontro de setembro de 2026 — TODO
Foto da autora, 2026
A versão mais conhecida do acidente começa no ferro-velho, com o brilho azul. A de Fábio começa antes, com um barulho. Ele tinha 11 anos e morava na casa dos fundos, separada da de Roberto por um muro. O pai, que saía para trabalhar à noite, viu Roberto e Wagner chegando com a peça em cima de uma carroça. Nos dias seguintes, a família ouvia o vizinho tentando abrir o chumbo. “Altas horas da noite, dez, onze horas da noite, a gente escutava ele dando marretadas no aparelho”, lembra.
Ninguém ali sabia o que era aquilo. Nem Roberto, diz Fábio. O pai dele fazia tarrafas e derretia chumbo para dar peso às redes de pesca. Se o vizinho tivesse oferecido o metal, a família teria levado o material para dentro de casa. “Todos que pegaram o césio, puseram na palma da mão, puseram no bolso, têm suas sequelas”, diz.
As consequências chegaram sem nome. A horta do quintal morreu. As canas que a família usava para fazer caldo começaram a apodrecer. Os cabelos de Fábio e de sua mãe caíam.
“Eu tinha 11 anos, mas parecia que eu tinha 90”, conta.
Fábio Mattos Capuzzo
A casa da família foi demolida durante a descontaminação. “Perdemos tudo”, lamentou.
Hoje com 50 anos, Fábio repete os números daquela história quase como quem procura um padrão no que não teve lógica: césio-137, Rua 57, 1987. Ele quer que o lote vire um lugar de memória, com o acervo do acidente contado “desde o início”. E acha que a história vai durar tanto quanto o material. “Só depois, daqui a uns 300 anos…”, calcula. “Ainda mesmo assim, vai ter gerações em cima de gerações relembrando.”
RETRATO
RETRATO: Donizeth Rodrigues de Oliveira, encontro de setembro de 2026 — TODO
Foto da autora, 2026
Donizeth Rodrigues de Oliveira também estava no encontro. O nome dele não está nos resumos mais repetidos do acidente, nem entre os personagens da série que a imprensa identificou como inspirados em pessoas reais. Só em 2026, com a atenção renovada, ele passou a aparecer em reportagens sobre a vida dos sobreviventes. Em 1987, trabalhava no ferro-velho de Ivo Alves Ferreira, o pai de Leide, no Setor Norte Ferroviário.
A memória dele começa numa manhã comum. Chegou ao trabalho e encontrou a família de saída para o hospital. Lourdes pediu que ele cuidasse do lugar: as crianças estavam passando mal, deviam ter comido alguma coisa estragada. “Eles não sabiam do que que era”, diz. A família não voltou. Donizeth passou a noite vigiando o ferro-velho, sem desconfiar de nada.
No dia seguinte, a polícia chegou e mandou que ele saísse. Quando se aproximou dos policiais, um deles reagiu: “Não chega perto de mim!”. Ninguém explicou o motivo. Donizeth subiu até a Avenida Anhanguera, pegou um ônibus até o Terminal Padre Pelágio e seguiu para casa. Sem saber, levou a contaminação para a família e para os vizinhos.
Dois dias depois, começou a passar mal. Foi pela televisão que entendeu: os plantões pediam que quem tivesse tido contato com aquelas pessoas fosse ao Estádio Olímpico. Lá, foi examinado e encaminhado ao Hospital Geral de Goiânia (HGG). Depois, ao isolamento.
Quando foi liberado, virou guia. As equipes que chegavam de fora não conheciam a cidade, e Donizeth conhecia boa parte das pessoas que tinham tido contato com o material. Saía com os técnicos para indicar as áreas mais contaminadas. Na narrativa dos heróis de macacão, ele seria figurante. Na dele, ajudou a fazer o trabalho. “Eu acabei ajudando a descontaminar Goiânia”, diz.
Hoje, aos 62 anos, Donizeth é um dos poucos atingidos que comparecem aos encontros. Muitos não vão, explica, porque não querem lembrar, ou porque a depressão não deixa. Ele vai justamente por isso.
“Eu, o Marcelo, o Fábio, nós não deixa cair no esquecimento. Porque, se não, daqui a uns dias nossos netos, nossos filhos vão ser esquecidos também, pelos governantes, pela população.”
Donizeth Rodrigues de Oliveira
A ausência dos que não vão também é parte da história. Toda narrativa pública depende de quem aceita contar. Quem prefere o silêncio, por dor ou por cansaço, quase nunca aparece, e a versão que circula acaba sendo feita pelos que ainda têm forças para falar.
RETRATO
RETRATO: Lourdes das Neves Ferreira, 2026 — TODO
Foto da autora, 2026
Lourdes das Neves Ferreira é uma delas. Tem 74 anos e fala baixo, quase num sussurro. Há 39 anos, sua vida é contada a partir de uma data: 23 de outubro de 1987, quando Leide, sua filha de seis anos, morreu depois de ser contaminada. Em julho de 2026, Lourdes perdeu outro filho, Lucimar das Neves Ferreira, aos 53 anos. Ele tinha 14 quando o césio entrou na casa da família e foi um dos internados de 1987.
A imagem de Leide, a criança, a idade, o brilho azul, é uma das mais reproduzidas do acidente. Está em reportagens, documentários, livros e cartazes. Essa força ajuda a dar a dimensão da tragédia, mas tem um custo: a mulher que sobreviveu à filha costuma aparecer só como a mãe da menina, coadjuvante na história de outra pessoa.
Lourdes não aceita esse lugar. Quando perguntada se falar sobre o césio ajuda ou reforça o preconceito, não hesita.
“Todos nós não podemos calar. Nós podemos falar, contar a verdade”, diz. “Com a verdade em primeiro lugar, você chega longe.”
Lourdes das Neves Ferreira
E faz uma ressalva que parece escrita para uma história tão recontada: “Nada de inventar coisa”.
Na boca de Lourdes, o ditado do conto ganha outro sentido. Para ela, o ponto que se aumenta não é detalhe literário. É o risco de que a versão dos outros substitua a de quem viveu.
Mapa dos lugares citados na reportagem
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01 · localização aproximada
Ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia
“Roberto e Wagner retiraram a peça das ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia”
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19872026
Ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia, 1987 — TODOCentro de Convenções, no terreno do antigo instituto, 2026 — TODO
Terreno hoje ocupado pelo Centro de Convenções, segundo o Metrópoles; coordenada do OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026.
Segundo a CNEN, “as áreas descontaminadas foram liberadas com segurança”.
02 · localização aproximada
Lote da Rua 57, Setor Central
“O lote onde ficava a casa de Roberto, no Setor Central de Goiânia, é hoje um retângulo de concreto.”
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Casa de Roberto na Rua 57, 1987 — TODOLote da Rua 57, laje de concreto, 2026 — TODO
Centro do trecho da Rua 57 no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026. Fiocruz, UFG e Metrópoles registram o nº 68; o lote não foi geocodificado.
03 · localização aproximada
Antigo ferro-velho de Devair, Setor Aeroporto
“a antiga Rua 26-A, onde ficava o ferro-velho de Devair, ganhou outro nome”
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Ferro-velho de Devair, Rua 26-A, 1987 — TODOTerreno do antigo ferro-velho, Setor Aeroporto, 2026 — TODO
Antiga Rua 26-A, hoje Rua Francisca da Costa Cunha, segundo o Metrópoles; trecho da rua no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026.
04 · localização a confirmar
Ferro-velho de Ivo, Setor Norte Ferroviário
“trabalhava no ferro-velho de Ivo Alves Ferreira, o pai de Leide, no Setor Norte Ferroviário”
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Ferro-velho de Ivo, Setor Norte Ferroviário, 1987 — TODOLocal do ferro-velho de Ivo, 2026 — TODO
Centro do bairro no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026. A Fiocruz registra Rua 6, quadra Q, lote 18, sem geocodificação.
05
Terminal Padre Pelágio
“Donizeth subiu até a Avenida Anhanguera, pegou um ônibus até o Terminal Padre Pelágio e seguiu para casa.”
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Terminal Padre Pelágio, 1987 — TODOTerminal Padre Pelágio, 2026 — TODO
Equipamento identificado no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026.
06 · localização aproximada
Antiga Vigilância Sanitária, hoje CARA
“Foi ali que Maria Gabriela deixou a peça que revelou o acidente.”
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Vigilância Sanitária, com a área cercada, 1987 — TODOCARA, no mesmo prédio, 2026 — TODO
Ponto médio dos dois trechos da Rua 16-A no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026. Fiocruz e Metrópoles registram o nº 792.
07
Estádio Olímpico
“os plantões pediam que quem tivesse tido contato com aquelas pessoas fosse ao Estádio Olímpico”
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19872026
Triagem no Estádio Olímpico, 1987 — TODOEstádio Olímpico, 2026 — TODO
Equipamento identificado no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026.
08
Hospital Geral de Goiânia
“Lá, foi examinado e encaminhado ao Hospital Geral de Goiânia (HGG).”
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Hospital Geral de Goiânia, 1987 — TODOHospital Geral de Goiânia, 2026 — TODO
Equipamento identificado no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026.
09 · localização a confirmar
Albergue do Jardim Europa
“foi trabalhar como cozinheiro no albergue do Jardim Europa”
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Albergue do Jardim Europa, 1987 — TODOLocal do albergue, Jardim Europa, 2026 — TODO
Centro do bairro no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026. O endereço do albergue não foi localizado.
10 · localização a confirmar
Repositório de Abadia de Goiás
“enviado ao depósito de Abadia de Goiás, para onde foram destinados os rejeitos do acidente”
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19872026
Transporte de rejeitos para Abadia de Goiás, 1987 — TODORepositório de Abadia de Goiás, 2026 — TODO
Centro do município no OpenStreetMap (Nominatim), consulta de 2 de novembro de 2026. O repositório não foi geocodificado.
03
Capítulo 03
Uma tragédia, muitos nomes
No caso do césio-137, essa escolha nunca foi neutra.
Antes de decidir o que contar, toda narrativa escolhe como chamar o que aconteceu. No caso do césio-137, essa escolha nunca foi neutra.
Marcelo Santos Neves, hoje presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AvCésio), tinha 22 anos em 1987 e foi trabalhar como cozinheiro no albergue do Jardim Europa, onde o governo montou uma cozinha porque as equipes não conseguiam comprar refeições para pacientes e trabalhadores. Com duas ajudantes, preparava a comida e recolhia dos quartos sobras, roupas, fezes e urina. Tudo era lacrado em sacos, levado para a Rua 57, jogado em tambores cheios de concreto e enviado ao depósito de Abadia de Goiás, para onde foram destinados os rejeitos do acidente. “Então essa aí foi a minha porta de entrada nessa terrível tragédia”, conta, em respostas gravadas em vídeo.
Na mesma frase, ele se corrige. “Para mim, não foi uma tragédia, foi um acidente.” A palavra, no sentido dele, não alivia ninguém. O que houve em Goiânia, para Marcelo, foi “uma tragédia anunciada”, consequência do descaso de quem deixou o aparelho para trás. Na versão exposta pelo presidente da AvCésio, a peça chegou a ter vigias, até que deixaram de cuidar dela. “Depois relaxaram, e a peça ficou assim, a céu aberto”, diz.
A jornalista Mirian Tomé Rezende, que cobriu o caso desde o primeiro dia, vai na mesma direção com outra expressão. “O que aconteceu aqui em Goiânia foi negligência pura dos donos da clínica e negligência pura de quem tinha a obrigação de fiscalizar”, afirma.
O historiador Yussef Campos, professor da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás (UFG), que pesquisa lugares de memória desde 2007, recusa o termo. Para ele, foi um crime, “que não foi um acidente”. Pessoas influentes na política local estiveram envolvidas, afirma, e há “uma clara tentativa de apagamento dessa memória” para que os responsáveis sejam desvinculados do que aconteceu.
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) usa a linguagem técnica. Em nota, fala em “acidente radiológico” e descreve o episódio como consequência do “descarte inadequado de um equipamento desativado”. A expressão é precisa do ponto de vista regulatório. Mas, comparada às outras, mostra como o vocabulário muda conforme quem fala: o que para uns é crime e para outros é negligência, para a instituição é um problema de descarte.
A disputa pelas palavras atinge principalmente dois homens. Roberto e Wagner retiraram a peça das ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia e, desde então, carregam rótulos. Foram chamados de ladrões. Depois, de catadores de papel. Artigos acadêmicos costumam descrevê-los como sucateiros.
Marcelo corrige. “O Roberto era vigilante de carro; o Wagner era CLT, ele fazia transporte de coletivo infantil.” Tanto que Wagner recebe hoje pensão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “Ninguém também nunca desmanchou essa má imagem que fizeram a respeito do Roberto e do Wagner”, conclui Marcelo.
Mirian faz a mesma defesa, com a autoridade de quem esteve no local em 1987. “Eu sempre digo que os catadores não roubaram a peça”, afirma. O aparelho estava num escombro, sem tranca. “Eles não arrombaram nada para roubar. Não tinha nem porta nem janela.” A fala dela revela o quanto o rótulo resiste: mesmo defendendo os dois, ela os chama de catadores.
A forma como Roberto e Wagner foram nomeados define o papel deles no enredo. Como ladrões, seriam culpados. Como catadores pobres, seriam vítimas da própria necessidade. Como trabalhadores que pegaram uma peça abandonada, o foco se desloca para quem deixou a peça ali.
Duas versões, dois papéis
A versão da dívida
E quem abandonou a peça? Também aqui as versões divergem. A que circula entre as vítimas, repetida por Marcelo, diz que o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) tinha uma dívida com o Instituto de Assistência dos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo), que teria ficado com o aparelho como pagamento e chegado a pôr vigias no local. Depois, o prédio teria sido demolido, e a peça ficado a céu aberto.
A versão dos autos
Os autos da ação penal contam outra história. O Instituto Goiano de Radioterapia funcionava num prédio da Avenida Paranaíba ligado à Santa Casa de Misericórdia. Uma ação de despejo levou a clínica a se mudar em 1985, e a bomba de césio ficou para trás. O terreno foi vendido ao Ipasgo. Em 4 de maio de 1987, um antigo sócio da clínica, que disputava o imóvel, mandou pedreiros retirarem telhas, portas e janelas. O Ipasgo chamou a polícia, a demolição foi embargada e o prédio ficou aberto, sem teto. Na denúncia e nas alegações finais, o Ministério Público Federal sustentou que o Ipasgo não sabia que o aparelho estava ali e nunca autorizou que ficasse.
Nos autos, não há dívida nem pagamento em aparelho. Há um imóvel em disputa e uma peça de que ninguém quis cuidar.
A distância entre as duas versões é um exemplo concreto de como um conto ganha pontos. A história da dívida não é invenção gratuita: ela organiza um fato difícil de aceitar, o de que uma fonte radioativa ficou cerca de dois anos largada num prédio abandonado, numa narrativa com começo e responsáveis claros. É assim que muitas versões nascem. Não da mentira, mas da necessidade de dar sentido.
As disputas por nomes não ficaram em 1987. Marcelo enumera mudanças que, para ele, empurram a história para longe: o endereço da casa de Roberto, na Rua 57, foi alterado; a antiga Rua 26-A, onde ficava o ferro-velho de Devair, ganhou outro nome; a Fundação Leide das Neves, “que era o nosso ponto de referência”, deixou de existir com esse formato. Para ele, é uma tentativa de pôr “uma página virada nessa história”.
Mudanças de endereço e de estrutura administrativa podem ter muitas razões. Mas o efeito descrito por Marcelo é real: quando os nomes dos lugares mudam, a história perde as marcas que a tornavam reconhecível no mapa da cidade.
Foi para disputar essas decisões que os atingidos criaram, em 1988, a AvCésio. A iniciativa foi de Odesson Alves Ferreira, irmão de Devair. As decisões, conta Marcelo, eram tomadas sem consultar os pacientes, e a associação nasceu para ser “um elo entre os pacientes e o governo”. Funcionou por alguns anos, perdeu força e passou duas décadas com o CNPJ extinto, sem nenhum documento guardado.
Entre 2024 e 2025, Marcelo, hoje paciente reconhecido do Grupo III, decidiu reativá-la. Foi ao cartório buscar cópias oficiais, publicou editais de convocação e organizou uma eleição. Em agosto de 2025, assumiu a presidência.
“Hoje eu entendo que essa retomada da associação é muito importante, porque nós estamos aí à beira do esquecimento”, diz.
Marcelo Santos Neves
Uma associação de vítimas também é uma forma de narrar. É a maneira de garantir que, quando alguém contar a história, exista um interlocutor para dizer: não foi bem assim.
Capítulo 04
A notícia enquanto a história acontecia
Toda história tem um primeiro narrador.
Toda história tem um primeiro narrador. No caso do césio-137, foi uma repórter que estava atrás de outra pauta.
FOTO
FOTO: Mirian Tomé Rezende em cobertura, 1987 — TODO
TV Anhanguera ou acervo de Mirian
setembro de 1987
Mirian Tomé Rezende foi à Secretaria de Saúde de Goiás, em setembro de 1987, para falar de vacina. Repórter da TV Anhanguera, afiliada da Rede Globo, havia mais de quatro anos, ela tinha uma entrevista marcada com o então secretário Antônio Faleiros sobre a falta de doses contra o sarampo. Encontrou o gabinete em alvoroço, num entra e sai de gente. O secretário disse que não podia falar: tinha um problema muito mais sério para resolver.
ferro-velho de Devair
Mirian insistiu até ele gravar. Havia suspeita de um vazamento de gás ou de alguma substância que tinha contaminado pessoas, mas ninguém sabia o que era. Ela pegou o endereço e foi com o cinegrafista ao ferro-velho de Devair. Estava tudo aberto. Devair contou que se sentia muito mal. Maria Gabriela também. Leide estava lá.
no fim da tarde
Maria Gabriela disse que tinha levado a peça à Vigilância Sanitária. A equipe correu para lá no fim da tarde e filmou a peça violada, no chão.
naquela noite
A matéria foi ao ar naquela noite. Segundo Mirian, foi a primeira reportagem sobre o acidente, feita ainda sem nenhuma ideia da sua dimensão.
Na manhã seguinte
Na manhã seguinte, ela voltou à Vigilância Sanitária para uma entrada ao vivo no Bom Dia Goiás. A CNEN já tinha cercado o local. Os técnicos haviam chegado de madrugada e confirmado: era césio-137. O físico José Júlio Rozental, que tinha visto a reportagem da noite anterior, reconheceu a repórter e a levou, com o cinegrafista, para um exame com contador de radioatividade. “O exame mostrou que eu não fui contaminada, mas tive uma exposição muito forte”, conta.
A partir dali, a narradora passou a ser também parte da história.
“Foi um exercício de cobertura muito desafiador, porque era tudo novo”, diz Mirian. “A gente passou a ter o desafio de informar enquanto ia aprendendo a lidar com o tema, à medida que as coisas aconteciam.” Nem os técnicos da CNEN sabiam direito como agir, lembra. Em Goiânia, não havia nenhum protocolo para algo daquele tamanho.
PautaGoiânia, 1987
Não havia internet. A pesquisa era feita por telefone. O então governador Henrique Santillo criou um comitê de crise, e as informações oficiais vinham em entrevistas coletivas, às vezes duas ou três por dia. Os boletins médicos do Hospital Geral de Goiânia informavam sobre os internados. Professores da UFG eram consultados para explicar o que ninguém entendia.
Rozental virou o principal aliado da repórter. “Sem ele a gente não teria feito um trabalho jornalístico com a qualidade que pôde fazer”, diz Mirian. Em vários momentos, lembra, o físico sofria para passar as informações, porque sabia da gravidade do que estava dizendo.
A dependência dos especialistas era inevitável numa emergência sem precedentes. Mas ela também moldou a narrativa. As perguntas que a cobertura conseguia responder eram as que os técnicos sabiam responder: onde estava o material, quem tinha tido contato com ele, como impedir que se espalhasse. As perguntas que só as vítimas poderiam responder, como era perder a casa, como era ser evitado na rua, tinham menos espaço e menos urgência.
Não significa que as vítimas estivessem fora da cobertura. Mirian conversava todos os dias com as famílias, as dos internados e as que tinham ficado em Goiânia. “As vítimas procuravam muito a gente, e a gente também procurava elas”, lembra. Segundo a repórter eram, em geral, famílias muito pobres, que viram tudo o que tinham virar lixo radioativo. “Foi um período muito triste”, lamentou.
A própria imprensa, porém, ajudou a criar um problema que as vítimas carregam até hoje. Ao publicar nomes e rostos, as reportagens tornaram os atingidos reconhecíveis na rua. Donizeth sentiu isso logo. “Eu tive muita discriminação depois que a gente saiu na mídia”, diz. Certa vez, entrou num ônibus lotado no Terminal Padre Pelágio. Uma pessoa o reconheceu, e os passageiros desceram “igual boiada”. Ninguém quis ficar. O motorista teve de levá-lo sozinho até a Vila Mutirão, onde ele morava. “Eu passei por isso várias vezes”, conta.
Quase quatro décadas depois, a série da Netflix faria o caminho inverso, apagando os nomes. Entre a exposição de 1987 e o apagamento de 2026, as vítimas raramente decidiram como seriam mostradas.
Mirian reconhece os limites do próprio ofício. “Muita besteira foi dita, muita coisa foi dita errada, com sensacionalismo”, afirma. Mas defende que a maioria dos jornalistas apurou com responsabilidade, ouvindo médicos e técnicos antes de publicar. E diz que deu a primeira notícia “com responsabilidade, sem alarde”, relatando a suspeita e a preocupação das autoridades sem tentar assustar ninguém.
Para ela, o risco maior estaria no presente. “Se a gente tivesse naquela época o alcance de comunicação que as redes sociais e a internet trouxeram, a situação seria muito ruim”, afirma. Hoje, diz, “todo mundo se acha no direito de noticiar, de opinar, de ser ‘repórter’ entre aspas”, muitas vezes de forma superficial. A lição que deixa para quem está começando na profissão é repetida três vezes:
E acrescenta uma advertência sobre a pressa: “O furo muitas vezes pode ser irresponsável”.
A cobertura também deixou marcas nela. Mirian ficou na TV Anhanguera até 2004 e, todo ano, no aniversário do acidente, voltava ao assunto. Participou de documentários, deu entrevistas, mas recusou todos os convites para escrever um livro ou fazer um projeto próprio. “Fui muito afetada pessoalmente”, explica. Depois da série, voltou a ser procurada por emissoras, jornais e por outro documentário. A repórter que deu a primeira notícia virou, ela mesma, fonte da história que ajudou a contar.
Em 1987, os jornalistas tentavam explicar o que estava acontecendo. Quase quatro décadas depois, quem volta ao assunto encontra uma história com personagens conhecidos, cenas repetidas e um final que todo mundo acha que sabe. O trabalho, agora, é outro: decidir o que fazer com tudo o que se acumulou.
05
Capítulo 05
O que os documentos guardam
Cada papel conta segundo o próprio critério.
Se a imprensa foi o primeiro narrador, as instituições foram as que escreveram a versão mais duradoura. Relatórios técnicos, processos judiciais, cadastros de pacientes e boletins oficiais têm uma autoridade que as lembranças não têm. São citados como prova.
O tenente-coronel Vanderlei Valério de Oliveira confia nesse tipo de registro. Químico, mestre em Ecologia e Produção Sustentável, ele comanda o Batalhão Especializado em Operações com Produtos Perigosos do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO), criado em 2024. Quando soube que esta reportagem investigava as diferentes formas de contar o acidente, indicou leituras: o relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), publicado em 1988, e um levantamento de órgãos estaduais feito no ano anterior.
“Na verdade não existe narrativa; na verdade o que existe é fato”, disse, no quartel do Batalhão. “Você pode pegar vários livros de pessoas que ficam narrando e tal, e isso aí, as palavras voam. E esses relatos que eu tô te passando tá tudo escrito, é em ocorrência que a gente atuou.”
Tenente-coronel Vanderlei Valério de Oliveira
A frase resume uma visão comum entre técnicos: há os fatos, registrados, e há as histórias, que se perdem ou se deformam. É uma posição respeitável, e os documentos são de fato indispensáveis. Mas o próprio Vanderlei, na mesma conversa, mostrou que os papéis também divergem. Segundo ele, o relatório internacional fala em sete focos de contaminação, todos em Goiânia, enquanto um levantamento ambiental estadual registra outros locais. Os registros oficiais de fato falam em sete focos principais, mas o próprio relatório da AIEA menciona focos secundários em outras partes da cidade.
E os números variam de documento para documento: o volume de rejeitos aparece como 3.500 metros cúbicos no site do governo de Goiás e como 6.500 em artigo acadêmico; o total de vítimas acompanhadas aparece como 1.143 em reportagem recente e como 1.601 no cadastro atual do CARA, que inclui descendentes. Cada papel conta segundo o próprio critério.
Volume de rejeitos
3.500 m³site do governo de Goiás
6.500 m³artigo acadêmico
Vítimas acompanhadas
1.143reportagem recente
1.601cadastro atual do CARA, que inclui descendentes
Focos de contaminação
7 focosrelatório internacional
outros locaislevantamento ambiental estadual
focos secundáriosrelatório da AIEA
Os relatórios também escolhem. Decidem o que medir, o que classificar, onde começar e onde terminar. Guardam com precisão o que foi isolado, demolido e enterrado. Não guardam a noite em que Donizeth vigiou o ferro-velho sem saber de nada, nem o barulho das marretadas que Fábio ouvia do quintal.
A CNEN é hoje a guardiã do legado material. Mantém a guarda e o monitoramento permanente do repositório de Abadia de Goiás, onde os rejeitos estão confinados, com análises de águas subterrâneas e superficiais, solo, vegetação e taxas de dose de radiação. Em respostas por escrito, a comissão afirma que o repositório é “tecnicamente estável e seguro” e que as áreas descontaminadas foram liberadas com segurança.
A instituição reconhece que o acidente mudou sua forma de trabalhar. Endureceu o controle sobre fontes radioativas sem dono, as chamadas fontes órfãs, e criou equipes de prontidão e protocolos de ação com a Defesa Civil. E admite que a lição mais importante não foi técnica. “A desinformação e o estigma social podem gerar danos tão significativos quanto a contaminação física”, diz a comissão.
Perguntada sobre o que ainda é pouco conhecido do acidente, a CNEN aponta “a dimensão humana do processo de resposta”: o trabalho de descontaminação feito pelas equipes brasileiras e “a capacidade de superação das comunidades de Goiânia e Abadia de Goiás”. A resposta revela a versão que a instituição considera mais valiosa. É, em grande parte, a do prólogo desta reportagem: a dos heróis que chegaram de roupas especiais e de uma cidade que voltou a respirar. Uma versão verdadeira, mas contada do lado de quem conteve o perigo.
Outra forma de registro está no Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (CARA). Ali, as pessoas atingidas são classificadas em três grupos, definidos pela Secretaria de Estado da Saúde. O Grupo I reúne quem teve lesões de pele causadas pela radiação ou recebeu dose alta no corpo inteiro; o Grupo II, familiares e contactantes das vítimas diretas que não atingiram esses índices; o Grupo III, quem trabalhou no acidente: policiais e bombeiros, médicos, motoristas, funcionários da vigilância sanitária, vizinhos dos focos e parentes que conviviam com as vítimas na época. O atendimento começou com 250 pessoas. Hoje, há 1.601 cadastrados, incluindo filhos, netos e bisnetos dos atingidos.
Três grupos, definidos pela Secretaria de Estado da Saúde
Grupo I
O Grupo I reúne quem teve lesões de pele causadas pela radiação ou recebeu dose alta no corpo inteiro
Grupo II
o Grupo II, familiares e contactantes das vítimas diretas que não atingiram esses índices
Grupo III
o Grupo III, quem trabalhou no acidente: policiais e bombeiros, médicos, motoristas, funcionários da vigilância sanitária, vizinhos dos focos e parentes que conviviam com as vítimas na época
Diagrama sem escala: o texto não informa quantas pessoas há em cada grupo.
Pessoas acompanhadas
250no início do atendimento
1.601hoje, com descendentes
A classificação é necessária para organizar o cuidado e definir direitos. Mas também é uma forma de narrar: decide quem entra na história oficial das vítimas e em que lugar. Até a memória dela varia. Mirian, que acompanhou a criação dos grupos em 1987, lembra de uma divisão em quatro grupos.
Grupos de atingidos
3 gruposSecretaria de Estado da Saúde
4 gruposmemória de Mirian
O desacordo mais grave está nos números de mortos. Os registros oficiais contam quatro mortes diretas em 1987: Leide e Maria Gabriela, que morreram no mesmo dia, 23 de outubro, e dois funcionários do ferro-velho de Devair que manipularam a cápsula, Admilson Alves de Souza, de 18 anos, morto em 18 de outubro, e Israel Baptista dos Santos, de 22, morto em 27 de outubro. A AvCésio estima que 104 pessoas morreram até 2012 em decorrência da contaminação, por câncer e outras doenças. Até essa estimativa muda conforme quem a repete: em reportagem do Estado de Minas, em julho de 2026, a mesma associação aparece citando “mais de 60” mortes. Uma conta registra a emergência. A outra tenta registrar o que veio depois.
Mortes
4registros oficiais, em 1987
104AvCésio, até 2012
“mais de 60”AvCésio, no Estado de Minas, julho de 2026
Qual é o número verdadeiro depende do que se decide contar. E decidir quem é vítima também é decidir quem tem direito a cuidado, pensão e reparação.
06
Capítulo 06
Quando o passado volta a ser notícia
A versão que mais gente conheceu em 39 anos é justamente a que não chama as vítimas pelo nome.
Em setembro de 2025, seis meses antes da estreia, Goiânia já reclamava. O Conselho Municipal de Cultura publicou uma carta aberta à Netflix contra a decisão de gravar fora de Goiás a série sobre o acidente. A produção foi filmada em São Paulo. A cidade onde tudo aconteceu ficou de fora do cenário da própria história.
Emergência Radioativa estreou em 18 de março de 2026. Em menos de duas semanas, somou mais de 10,8 milhões de visualizações e entrou no top 10 de pelo menos 55 países, segundo a plataforma. Em sua segunda semana, chegou ao primeiro lugar no ranking global da Netflix entre as séries de língua não inglesa.
O noticiário acompanhou a onda. Dos 107 textos jornalísticos de 2026 analisados para esta reportagem, 72 foram publicados em março e abril, cerca de dois terços do total. A série era o assunto principal de 50 deles e aparecia como referência em outros 22. Entre os demais, havia textos sobre o Memorial, as pensões, o repositório de Abadia de Goiás e a morte de sobreviventes, temas que nem sempre tinham relação com a produção, mas ganharam espaço no mesmo período.
Textos jornalísticos publicados em 2026, por mês
35 textos. Distribuição mês a mês a confirmar com a autora.
Relação dos 107 textos com a série
Cada quadrado é um texto.
Textos jornalísticos publicados em 2026, por mês
Mês
Quantidade de textos
março
51
abril
21
Demais meses
35 (dado a confirmar)
Relação dos 107 textos com a série
Relação com a série
Quantidade de textos
Com a série como tema principal
50
Com menção à série
22
Sem relação
35
A série reuniu, para o grande público, uma versão do acidente com começo, meio e fim. E, para isso, fez escolhas. A mais visível foi trocar os nomes das vítimas por nomes fictícios. Leide virou Celeste; Lourdes, Catarina; Maria Gabriela, Antônia; Devair, Evenildo. A segunda foi organizar a trama em torno de um protagonista que não existiu: o físico Márcio, interpretado por Johnny Massaro, que condensa vários cientistas que atuaram em 1987, sobretudo Walter Mendes Ferreira, o primeiro a perceber a gravidade do material e hoje chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN.
Quem é quem
Na série
Na vida
Celeste
Leide das Neves Ferreira
Catarina
Lourdes
Antônia
Maria Gabriela
Evenildo
Devair
Márcio, interpretado por Johnny Massaro
vários cientistas, sobretudo Walter Mendes Ferreira
Celeste
Catarina
Antônia
Evenildo
Márcio, interpretado por Johnny Massaro
Celeste
Catarina
Antônia
Evenildo
Márcio, interpretado por Johnny Massaro
A ficção tem o direito de inventar. Mas, quando se apresenta como inspirada em fatos reais e se torna a principal porta de entrada para milhões de pessoas, suas invenções viram, para muita gente, a própria história. E a escolha do protagonista diz quem a série considera o centro do acidente: o cientista que descobre o perigo, e não quem foi atingido por ele.
Para quem viveu o acidente, a série tem dois lados. Lourdes reconhece o efeito. “A nossa história estava esquecida, todo mundo calado, e com a minissérie estourou”, diz. Para ela, foi por causa da série que o assunto voltou em 2026, e até o governador passou a falar dele na televisão. Fábio concorda: muita gente, conta, só soube do acidente pela Netflix.
Mas Lourdes também não se reconheceu na tela. Ela se incomodou com Catarina, a personagem que, na série, ocupa o lugar que foi dela: uma mãe que vive “brigando com todo mundo” e que, nas palavras de Lourdes, sai “parecendo uma doida”. É o ponto do conto que machuca. A personagem tem outro nome, mas quem conhece a história sabe de quem se trata.
“A série não expôs nem 30% do que nós passamos”, afirma Donizeth.
Donizeth Rodrigues de Oliveira
A produção também não ouviu as vítimas: a AvCésio afirmou publicamente que não foi consultada. Para Donizeth, a troca dos nomes foi uma forma de evitar compromissos com os atingidos. Ele acredita que, se a série tivesse sido feita com as vítimas e com os nomes reais, poderia ter revertido alguma ajuda a quem ainda precisa de exames, tratamento e remédios. Ele mesmo espera há tempos por um aparelho auditivo. “Já ia ajudar a gente muito, que seja em pequena quantidade de valores”, diz.
Mirian faz a crítica por outro ângulo. Reconhece o mérito de ter tirado o tema do esquecimento, “como fazia tempo que não se falava”, mas acha que o resultado foi superficial. A mudança dos nomes, diz, “comprometeu o entendimento da tragédia dessas pessoas, porque elas nunca quiseram deixar de aparecer, pelo contrário”. As locações também a incomodaram. “Você teria que fazer aqui, mostrar o que aconteceu aqui.” Mesmo assim, conclui: “É melhor ter feito alguma coisa do que não ter feito nada”.
A CNEN avalia o momento “de forma muito positiva”, como oportunidade para esclarecer conceitos sobre radiação e preservar a memória das vítimas. Pede, porém, que as produções diferenciem o acidente de 1987 do uso seguro de tecnologias nucleares e radiológicas, como na medicina.
Não é possível dizer que a série causou, sozinha, tudo o que aconteceu em 2026. Mas o calendário mostra coincidências. No mesmo março da estreia, o governo de Goiás propôs, e a Assembleia aprovou, o reajuste das pensões das vítimas. Em agosto, Goiânia sancionou a lei do Memorial. A atenção trazida pela ficção ajudou a abrir espaço para reivindicações antigas.
E produziu um paradoxo. A versão que mais gente conheceu em 39 anos é justamente a que não chama as vítimas pelo nome. Em 1987, a imprensa expôs os nomes e, com eles, o estigma. Em 2026, a ficção os retirou e, com eles, parte do reconhecimento.
O que é real e o que é ficção na série
Na série
Os nomes
Leide virou Celeste; Lourdes, Catarina; Maria Gabriela, Antônia; Devair, Evenildo.
Na vida
Os nomes
trocar os nomes das vítimas por nomes fictícios
Na série
O protagonista
o físico Márcio, interpretado por Johnny Massaro
Na vida
O protagonista
um protagonista que não existiu
Na série
A cidade
A produção foi filmada em São Paulo.
Na vida
A cidade
A cidade onde tudo aconteceu ficou de fora do cenário da própria história.
Na série
A associação
A produção também não ouviu as vítimas
Na vida
A associação
a AvCésio afirmou publicamente que não foi consultada
Na série
Lourdes
uma mãe que vive “brigando com todo mundo”
Na vida
Lourdes
Mas Lourdes também não se reconheceu na tela.
07
Capítulo 07
Uma história não cabe em uma única obra
cada época escolheu um ângulo e um narrador diferente
A série de 2026 não inaugurou a representação do acidente. Ela chegou depois de quase quatro décadas de filmes, documentários, livros, exposições e trabalhos artísticos. O levantamento feito para esta reportagem encontrou 44 obras culturais produzidas entre 1987 e 2026: 39 tratam diretamente do césio-137, duas se inspiram nele e três apenas o mencionam. A lista não é completa, mas é suficiente para desfazer a ideia de que a história só voltou a ser contada agora.
As obras mostram, sobretudo, que cada época escolheu um ângulo e um narrador diferente.
Três anos depois do acidente, Césio 137 – O Pesadelo de Goiânia (1990), de Roberto Pires, levou a tragédia ao cinema de ficção. E fez uma escolha marcante: teve as próprias vítimas como figurantes. Quem viveu a emergência apareceu na tela encenando a emergência.
O tema voltou em documentários como Césio 137 – O Brilho da Morte (2003), de Luiz Eduardo Jorge, e na coprodução Brasil-Suécia Tem Césio no Meu Sangue, de Lars Westman. Celsius 13.7 (2012), de Beto Leão, retomou o assunto já no século 21.
A produção goiana mais recente variou ainda mais os caminhos. Amarelinha, de Ângelo Lima, transforma o pó azul num objeto de infância: na brincadeira de uma menina, a pedra é azul. Benedito Ferreira dirigiu Algo do que Fica, e Michael Valim, Rua 57, nº 60, Centro, cujo título é o endereço da rua onde tudo começou. O Dente do Dragão (2021), de Rafael C. Parrode, chegou ao Festival de Berlim.
E Lourdes e Leide, também de Ângelo Lima, foi filmado em 2025 dentro da casa de Lourdes e exibido em 2026. Filmado em quatro dias, todo dentro da casa, o curta acompanha a rotina de Lourdes em 2025 e, em vez de reconstituir a tragédia, observa o que permaneceu depois dela. Lourdes é a protagonista. Ao jornal O Hoje, ela explicou por que aceitou as câmeras: queria mostrar que muitos acham que o governo cuida bem dela, “mas não é assim”.
Em junho de 2026, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), na cidade de Goiás, reuniu parte dessa produção na mostra O Brilho que Ficou, com Lourdes e Leide, Algo do que Fica, Dispersão, O Dente do Dragão e Rua 57, nº 60, Centro. O festival também promoveu o painel “Césio 137, a imagem que não ficou”. Na mesa estavam o diretor da série da Netflix, Fernando Coimbra, a sobrevivente Luíza Odet Mota dos Santos e a antropóloga Telma Camargo. Quem fez a versão de maior alcance sentou ao lado de quem viveu a história.
No Museu de Arte de Goiânia, no Bosque dos Buritis, a exposição Memórias de Dona Lourdes: Ver para não esquecer reuniu fotografias do acidente e da relação entre mãe e filha. É outra forma de narrar, com sua própria lógica. Uma exposição depende de curadoria: alguém escolhe quais fotos entram, em que ordem e com que legenda.
Quase quatro décadas de obras
39 tratam diretamente do césio-1372 se inspiram nele3 apenas o mencionamA lista não é completa.
As obras citadas nesta reportagem
13 / 13
Césio 137 – O Pesadelo de Goiânia
1990
Césio 137 – O Pesadelo de Goiânia
ficção · Direção: Roberto Pires
“teve as próprias vítimas como figurantes”
As vítimas na tela
Césio 137 – O Brilho da Morte
2003
Césio 137 – O Brilho da Morte
documentário · Direção: Luiz Eduardo Jorge
“O tema voltou em documentários como Césio 137 – O Brilho da Morte (2003), de Luiz Eduardo Jorge”
Celsius 13.7
2012
Celsius 13.7
tipo não informado · Direção: Beto Leão
“Celsius 13.7 (2012), de Beto Leão, retomou o assunto já no século 21.”
O Dente do Dragão
2021
O Dente do Dragão
tipo não informado · Direção: Rafael C. Parrode
“O Dente do Dragão (2021), de Rafael C. Parrode, chegou ao Festival de Berlim.”
Lourdes e Leide
2025/2026
Lourdes e Leide
curta · Direção: Ângelo Lima
“o curta acompanha a rotina de Lourdes em 2025 e, em vez de reconstituir a tragédia, observa o que permaneceu depois dela”
De dentro da casa de quem viveu
O Brilho que Ficou
2026
O Brilho que Ficou
mostra
“o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), na cidade de Goiás, reuniu parte dessa produção na mostra O Brilho que Ficou”
Emergência Radioativa
2026
Emergência Radioativa
série · Direção: Fernando Coimbra
“minissérie que levou o acidente a milhões de pessoas em dezenas de países”
Sem ano no texto
Tem Césio no Meu Sangue
—
Tem Césio no Meu Sangue
documentário · Direção: Lars Westman
“na coprodução Brasil-Suécia Tem Césio no Meu Sangue, de Lars Westman”
Amarelinha
—
Amarelinha
tipo não informado · Direção: Ângelo Lima
“Amarelinha, de Ângelo Lima, transforma o pó azul num objeto de infância: na brincadeira de uma menina, a pedra é azul.”
Algo do que Fica
—
Algo do que Fica
tipo não informado · Direção: Benedito Ferreira
“Benedito Ferreira dirigiu Algo do que Fica”
Rua 57, nº 60, Centro
—
Rua 57, nº 60, Centro
tipo não informado · Direção: Michael Valim
“cujo título é o endereço da rua onde tudo começou”
Dispersão
—
Dispersão
tipo não informado
“com Lourdes e Leide, Algo do que Fica, Dispersão, O Dente do Dragão e Rua 57, nº 60, Centro”
Memórias de Dona Lourdes: Ver para não esquecer
—
Memórias de Dona Lourdes: Ver para não esquecer
exposição
“reuniu fotografias do acidente e da relação entre mãe e filha”
Cada formato faz escolhas. A ficção aproxima o público da emoção, mas organiza personagens para a trama andar. O documentário preserva depoimentos, mas decide quem fala e quanto tempo cada um tem. A exposição reúne objetos, mas define o percurso do visitante. Nenhuma obra precisaria contar tudo, e nenhuma conseguiria. Quase quatro décadas de consequências não cabem em cinco episódios nem num longa.
O problema começa quando uma versão passa a ser tomada pela história inteira. A série da Netflix tem esse poder por causa do alcance. As obras anteriores, muitas pouco conhecidas fora de Goiás, servem de contrapeso: mostram que a mesma história já foi contada com as vítimas na tela, com os nomes verdadeiros e de dentro da casa de quem a viveu.
O historiador Yussef Campos defende que esse contrapeso se amplie.
“É imprescindível que haja democratização nas formas de narrar o trauma”, afirma. “Não só institucionalmente, mas em todo meio em que as vozes dos acidentados possam ecoar e reverberar.”
Yussef Campos
Capítulo 08
O brilho azul no algoritmo
quem tem autoridade para falar sobre o acidente quando todos podem falar?
Nas redes sociais, o césio-137 não tem um só formato. É explicado em vídeos didáticos, encenado em esquetes, transformado em meme, revisitado em tours pelos locais do acidente e medido com contadores de radiação. Fotos antigas ganham cor e movimento. Trilhas dramáticas acompanham imagens de arquivo. Uma geração que nasceu décadas depois do acidente o conhece, muitas vezes, por ali.
O mosaico de vídeos reunido para esta reportagem mostra essa variedade. Um dos mais vistos de 2026 visita o terreno do antigo ferro-velho de Devair. Outros recuperam o pó azul como imagem de impacto. Nos comentários, o humor convive com o desconforto, e há quem diga ter conhecido a história ali mesmo.
Mosaico de vídeos
Vídeo: Visita ao terreno do antigo ferro-velho de Devair — TODO embed/arquivo
Vídeo: O pó azul como imagem de impacto — TODO embed/arquivo
Vídeo: Vídeo didático sobre o acidente — TODO embed/arquivo
Vídeo: Esquete sobre o acidente — TODO embed/arquivo
Vídeo: Vídeo com medidor de radiação — TODO embed/arquivo
Vídeo: Fotos antigas com cor e movimento — TODO embed/arquivo
O pó azul funciona bem nesse ambiente porque é fácil de reconhecer e de reproduzir. Brilha, chama atenção, cabe em poucos segundos. As consequências que se arrastam por quase quatro décadas pedem contexto, e contexto custa tempo. O vídeo curto não é necessariamente raso, mas o formato favorece o que impressiona de imediato, e o que impressiona de imediato no césio-137 é a cena de 1987, não a vida depois dela.
As redes também mudaram quem narra. Em 1987, a história era contada por jornalistas, técnicos e autoridades. Em 2026, qualquer pessoa com um celular pode reconstituí-la, comentá-la ou investigá-la. Essa abertura é uma conquista. Mas cria uma disputa nova: quem tem autoridade para falar sobre o acidente quando todos podem falar?
O caso de Pedro Augusto de Jesus Castro mostra essa disputa em detalhe. Ele tem 18 anos, é astrofotógrafo, estudante de Engenharia de Computação da UFG e se apresenta como divulgador científico. Morador de Goiânia, se interessava pelo acidente desde criança. Quando ganhou um cintilômetro Radiacode-110 para outro experimento, decidiu levá-lo aos locais da tragédia. Queria responder a uma pergunta: ainda dava para detectar o césio-137 depois de 39 anos?
Com um mapa dos pontos contaminados em 1987, visitou um a um. O aparelho, fabricado no Chipre e calibrado por ele, mede quanta radiação há no local e também identifica qual elemento a está emitindo, porque cada material radioativo deixa uma espécie de impressão digital própria. Segundo Pedro, a maioria dos locais mostrou a impressão digital do césio-137, o que indica uma contaminação baixa e pontual. A maior leitura foi num ponto do meio-fio da Rua 57.
Pedro diz que deixou claro, nos vídeos, o limite das próprias medições. “As taxas medidas são baixas e não apontam perigo nas áreas, só provam que ainda há baixa contaminação”, afirma ter dito. O aparelho não tem certificação do Inmetro, e ele reconhece que a medição não substitui a oficial. “A contaminação baixa existe e isso é inegável. Agora, o que não dá pra fazer é tirar conclusões além disso”, concluiu.
Os vídeos viralizaram e viraram reportagem. Segundo Pedro, numa reportagem da TV Record, o físico Walter Mendes Ferreira, que identificou o acidente em 1987 e hoje chefia a Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN, disse que o estudante não sabia interpretar o que fazia e estava causando pânico na população. Pedro nega. “Ao invés de mostrar evidências, ele se importou em descredibilizar o meu trabalho”, diz o estudante, que afirma admirar o físico.
Para Pedro, a resposta certa seria explicar por que a medição não é oficial e, com os dados do monitoramento, confirmar que os níveis são seguros. Ele defende a divulgação científica como forma de prevenção. “O acidente ocorreu pela falta de informação, né? Por que não prezar pela abundância?”
A CNEN, em nota, não comentou o caso. Mas reforça que as áreas descontaminadas foram liberadas com segurança e diz que ainda existe confusão entre contaminação pontual e efeitos da radiação. Detectar um sinal não é o mesmo que provar risco. A avaliação depende do equipamento, do método e da interpretação, e contaminação, exposição e risco à saúde são coisas diferentes.
A polêmica, porém, não é só técnica. Pedro diz que o presidente da AvCésio elogiou o trabalho. Donizeth vê de outro jeito. Para ele, os criadores de conteúdo que vão aos locais com medidores e fazem vídeos para mostrar que ainda há radiação praticam “mais uma discriminação”.
“A gente, agora, 39 anos depois, as pessoas ainda acham um meio de discriminar a gente”, diz.
Donizeth Rodrigues de Oliveira
Ele sabe do que fala. É o mesmo homem que, em 1987, viu um ônibus inteiro esvaziar quando entrou. No comércio e no supermercado, as pessoas se afastavam e apontavam o dedo. Hoje, calcula ele, mais de 80% da população entende o problema das vítimas. “Mas tem uma minoria aí que ainda discrimina a gente.”
No mesmo vídeo, portanto, cabem duas leituras. Para o criador, é ciência e prevenção. Para quem viveu o estigma, é a lembrança de que o próprio bairro pode voltar a ser visto como perigoso. As duas leituras são legítimas, e nenhuma delas aparece na tela.
Alerta
Acidente com amônia
não era césio
O Corpo de Bombeiros lida com outro efeito dessa memória. “É o ‘piripaque goiano’. Então assim, é tudo césio, né? Até acidente com amônia, o povo fala que é césio”, conta o tenente-coronel Vanderlei. A expressão, conta, é usada pelo pessoal do Rio de Janeiro. O batalhão que comanda já foi acionado para lidar com diversos acidentes que acabaram não sendo césio.
Alerta
Peça envolvida em concreto, depósito de reciclagem em Anápolis
não era césio: um tubo de raio X, sem material radioativo
Em 18 de junho de 2026, uma denúncia levou a equipe a um depósito de reciclagem em Anápolis. Alguém tinha envolvido uma peça em concreto, como se fazia com os rejeitos do césio, achando que assim a blindaria. O Batalhão não tem equipamento próprio para identificar radiação ionizante, caro demais para o orçamento. Vanderlei acionou a CNEN, e Walter Mendes liberou os técnicos. A peça era um tubo de raio X, sem material radioativo.
A memória do acidente ensinou Goiás a desconfiar, e isso tem valor: em 1987, ninguém desconfiou a tempo. Mas a mesma memória faz qualquer brilho estranho virar, de saída, um novo césio.
09
Capítulo 09
“Como assim você não conhece o Césio?”
“Se eu não conhecia, talvez muita gente também não conheça”
Numa entrevista coletiva de divulgação da série, Johnny Massaro, o protagonista, contou que, ao ler a sinopse, achou que se tratava de ficção. Nascido em 1992, não conhecia a história. Só depois descobriu que era real. “Se eu não conhecia, talvez muita gente também não conheça”, disse.
A declaração repercutiu no X. Parte dos usuários reagiu com espanto, tratando o acidente como capítulo obrigatório da memória brasileira, e especialmente da goiana. Outros responderam que também sabiam pouco, que não lembravam de ter estudado o tema na escola ou que só tinham entendido o que aconteceu com conteúdos recentes. Houve quem relatasse ter vivido situações parecidas com as das vítimas e quem lembrasse que o estigma não acabou.
As reações dizem mais sobre a memória do que sobre o ator. Para uns, não saber é falha de educação e de responsabilidade pública. Para outros, é a prova de que a história não passou de geração em geração da forma que se imagina, mesmo na cidade onde aconteceu.
Publicações no X sobre a fala do ator
PRINT: Reação de espanto à fala do ator — TODO
“Parte dos usuários reagiu com espanto”
PRINT: Quem responde que também sabia pouco — TODO
“Outros responderam que também sabiam pouco”
PRINT: Quem não lembra de ter estudado o tema na escola — TODO
“que não lembravam de ter estudado o tema na escola”
PRINT: Quem lembra que o estigma não acabou — TODO
“quem lembrasse que o estigma não acabou”
No Bosque dos Buritis, em Goiânia, a reportagem fez uma pergunta a quem passava.
Marcosnão conhece
Marcos Felipe Braga Coelho, de 21 anos, nascido na capital, não sabe o que foi o acidente. Nunca estudou o tema na escola. Ouviu falar da série, mas não teve interesse em assistir.
Muriloescola, depois YouTube
Murilo Soares Nogueira, de 24 anos, empresário e estudante de Relações Públicas na UFG, ouviu falar pela primeira vez na escola. “Eu conheço o acidente do Césio-137, e eu sei bem rasamente sobre o assunto”, diz. Ficou curioso por ser algo que aconteceu na cidade dele e foi atrás de vídeos no YouTube. Na versão que guardou, os dois jovens acharam “uma máquina de raio X, se não tô enganado”. Tem medo de que algo parecido se repita, mas acha improvável.
Mirelaaula, depois a série
Mirela Eduarda de Moraes, de 24 anos, estudante de Psicologia da PUC-GO, conheceu o caso numa aula de história de Goiânia e voltou a ele com a série. Ela narra o acidente com riqueza: os dois jovens, o ferro-velho, o pó que de dia era branco e de noite ficava azul, o jantar em que o dono mostrou o achado aos vizinhos, a mulher que desconfiou, colocou o material num saco e levou de ônibus à Vigilância Sanitária, onde ele ficou numa cadeira, quase sem atenção. Lembra até do físico que chegou com um medidor e impediu que os bombeiros jogassem a fonte no rio.
O relato mistura o que está documentado com pontos acrescentados pelo tempo. Mirela diz que a cápsula estava num hospital abandonado, quando era uma clínica de radioterapia desativada. O jantar em que o dono teria distribuído o pó não aparece em nenhum registro: Devair mostrou o material a parentes e amigos ao longo de dias. Acredita que “a maioria das vítimas morreram”, quando as mortes registradas em 1987 foram quatro. E acha que Devair morreu “há pouco tempo”. Ele morreu em 1994.
É o ditado acontecendo ao vivo. Nenhum dos três erra por descaso. Cada um chegou à história por uma porta diferente — a escola, a série, os vídeos —, e cada porta entrega uma parte. Na passagem de uma para outra, detalhes se perdem e outros entram. O hospital toma o lugar da clínica. A morte de Devair se aproxima do presente. O número de vítimas cresce ou diminui conforme quem conta.
E você? Como essa história chegou até você?
Sua resposta fica só neste aparelho. Nada é enviado.
Na escola
“Cabe numa aula de história, num episódio de série, num vídeo de um minuto.”
O que quase nunca entra é o que aconteceu depois da emergência. Quem chega pela porta mais popular aprende o enredo de 1987, com seus personagens e reviravoltas. Fica sem saber quem sobreviveu, como os atingidos se organizaram, por que as pensões precisaram ser reajustadas em 2026 ou por que um centro de saúde ainda acompanha 1.601 pessoas.
O desafio não está só em fazer as pessoas conhecerem o acidente. Está em ligar as portas entre si: sair do vídeo viral e chegar a uma fonte confiável, reconhecer o rosto de uma vítima e saber o nome dela, aprender a cronologia e entender as responsabilidades.
10
Capítulo 10
O que significa continuar sendo cuidado
A emergência tem data de fim. As consequências, não.
O Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (CARA) funciona no mesmo prédio onde ficava a Vigilância Sanitária em 1987. Foi ali que Maria Gabriela deixou a peça que revelou o acidente. O lugar onde a história foi descoberta virou o lugar onde ela continua sendo cuidada.
FOTO
FOTO: Fachada do CARA, no prédio da antiga Vigilância Sanitária, 2026 — TODO
Foto da autora, 2026
A versão do conto termina quando a emergência é contida. A do CARA começa nesse ponto. “O acidente havia terminado, mas as consequências para aquelas famílias e para a sociedade estavam apenas começando”, escreveu a diretora-geral, Glauciene Umbelina de Freitas Esteves, em respostas enviadas à reportagem. “Era necessário acompanhar, cuidar, pesquisar, registrar informações e oferecer assistência continuada.”
A estrutura nasceu como Fundação Leide das Neves e foi se transformando em sucessivas reformas administrativas até virar o CARA, hoje ligado à Secretaria de Estado da Saúde. A equipe reúne médicos, enfermeiros, psicólogos, dentistas e assistentes sociais. Os pacientes elegíveis têm plano de saúde pelo Ipasgo Saúde, motoristas para levá-los a consultas e procedimentos e pensões pagas pelos governos federal e estadual.
Em quase quatro décadas, a população acompanhada mudou. As pessoas envelheceram, tiveram filhos e netos, passaram a lidar com doenças crônicas e com questões de saúde mental. “Não se trata simplesmente de olhar para o que aconteceu em 1987, mas compreender como essas pessoas chegaram ao presente”, diz Glauciene. Ela admite que as instalações são modestas diante do que o centro poderia oferecer, e aponta como um dos maiores desafios garantir que o acompanhamento continue para as próximas gerações.
Do lado de quem é atendido, a lista é de perdas. Segundo Marcelo, nos anos em que a associação ficou parada, os pacientes passaram oito anos sem reajuste nas pensões. A frota de transporte caiu de oito carros para três. O governo parou de doar remédios. Famílias que tiveram as casas demolidas durante a descontaminação não receberam outras. “Hoje a associação não tem sede, não tem casa de apoio, não tem memorial, não tem museu”, diz. Para ele, ao virar as costas para isso, “o governo está tentando apagar um pedaço desses pacientes”.
O reajuste veio em 2026, com a série no ar. Em março, o governo estadual propôs, e a Assembleia Legislativa aprovou, um aumento de quase 70% nas pensões de 603 beneficiários. A lei foi sancionada em 30 de março, no último dia de Ronaldo Caiado no cargo de governador. Não é possível afirmar que a série tenha provocado a decisão, mas ela chegou no momento em que o acidente voltava ao centro das atenções.
quase70%
quase 70%de aumento nas pensões603 beneficiáriosSancionado em 30 de março de 2026
O que os números do CARA não mostram aparece no corpo de Donizeth. Ele enumera o que acumulou desde 1987: oito infartos, um derrame, problemas na tireoide, diabetes, uma hérnia na barriga, a perda da audição do ouvido esquerdo. “Isso aí tudo vai só aparecendo. Cada dia mais aparece mais as coisas”, diz.
Perdeu também todos os dentes. Usa duas próteses que se soltam quando come, e por isso evita comer na frente dos outros. “Às vezes eu vou comer na casa de alguém, eu pego o prato, falo ‘não, tá bom, eu vou comer aqui’. Eu tenho que arrumar sempre uma desculpa e comer afastado das pessoas”, conta. Só come à mesa com a família, que já sabe. Diz que parte dos remédios ainda falta e que precisa comprar o que o sistema não fornece. Já pediu ajuda ao governo para o aparelho auditivo e para os dentes.
A lista de perdas, segundo Marcelo
oito anos sem reajuste
de oito carros para três
sem doação de remédios
casas demolidas, sem outras
sem sede
sem casa de apoio
sem memorial
sem museu
A lista do corpo, segundo Donizeth
oito infartos
um derrame
a tireoide
diabetes
uma hérnia
a audição do ouvido esquerdo
todos os dentes
Lourdes conhece o que o acidente faz com uma família ao longo do tempo. Sobre o preconceito, ela fala de uma mudança lenta. “Nos primeiros anos era mais forte. Hoje é mais fraco, mas ainda tem.”
Glauciene também reconhece que o estigma não desapareceu. Durante anos, diz, algumas pessoas foram vistas “quase como se carregassem consigo um perigo”. “É importante lembrar que estamos falando de pessoas, não de uma substância.” Para ela, cuidar não se limita a consultas. “Cuidar também é reconhecer, ouvir e respeitar a história de cada um.”
A área pode estar radiologicamente segura, como afirma a CNEN, e o repositório de Abadia de Goiás pode estar estável. Ainda assim, as doenças, o estigma e as disputas por benefícios continuam. A emergência tem data de fim. As consequências, não.
Glauciene resume o que gostaria que a sociedade entendesse:
“A pessoa que foi afetada pelo acidente não pode ser reduzida à condição de vítima. Ela tem nome, família, profissão, sonhos, conquistas e uma história que continua”.
Glauciene Umbelina de Freitas Esteves
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Capítulo 11
A memória entre a lei e a vida
“É uma história nossa”
Em 27 de agosto de 2026, o prefeito Sandro Mabel sancionou a Lei Municipal nº 11.692, que cria o Memorial e Museu Césio-137. A cidade passou a ter uma lei que prevê um espaço dedicado à história do acidente, ao reconhecimento das vítimas e à educação.
A lei, porém, não diz onde o Memorial vai ficar. O local será definido pela prefeitura. O vereador Lucas Kitão, autor do projeto aprovado por unanimidade na Câmara Municipal, sugeriu um terreno na Rua 77, atrás do Mercado da 74, no Centro, e citou como modelo o memorial do 11 de Setembro, em Nova York. A área do antigo ferro-velho, no Setor Aeroporto, também foi cogitada. O lote da Rua 57, onde as vítimas se reúnem nos eventos de memória e onde Fábio gostaria de ver um acervo, não está no texto da lei. Procurado, o vereador não respondeu à reportagem.
A escolha do lugar também é uma forma de contar. Um memorial no lote da Rua 57 marcaria o ponto onde a cápsula foi aberta, ao lado de quem ouviu as marretadas. Um prédio novo no Centro, inspirado em Nova York, contaria a história a partir de outro endereço e de outra referência. Nenhuma das opções é errada. Mas cada uma diz algo diferente sobre o que deve ser lembrado.
O caminho até a lei foi torto. Na Assembleia Legislativa, um projeto do deputado estadual Karlos Cabral (PL 3642/24) previa um monumento em forma de obelisco, de preferência na Praça do Trabalhador ou no Setor Aeroporto, e o 13 de setembro como data de honras cívicas e militares às vítimas. Foi aprovado em segunda votação em 1º de junho de 2026, com 27 votos. Segundo Marcelo, o governador Daniel Vilela não o sancionou, alegando vício de iniciativa: a proposta deveria ter partido do Executivo, e não dos parlamentares. Não seria a primeira vez. Na justificativa do projeto, o próprio deputado lembrava que uma versão anterior já havia sido vetada por Marconi Perillo.
Onde o Memorial pode ficar
Carregando mapa…
sugeriu um terreno na Rua 77, atrás do Mercado da 74, no Centro, e citou como modelo o memorial do 11 de Setembro, em Nova York
Um prédio novo no Centro, inspirado em Nova York, contaria a história a partir de outro endereço e de outra referência.
A área do antigo ferro-velho, no Setor Aeroporto, também foi cogitada.
O lote da Rua 57, onde as vítimas se reúnem nos eventos de memória e onde Fábio gostaria de ver um acervo, não está no texto da lei.
Um memorial no lote da Rua 57 marcaria o ponto onde a cápsula foi aberta, ao lado de quem ouviu as marretadas.
previa um monumento em forma de obelisco, de preferência na Praça do Trabalhador ou no Setor Aeroporto
A AvCésio, conta Marcelo, se ofereceu para construir com o governo um novo projeto, “de comum acordo”, mas foi pouco atendida. A saída veio pela Câmara Municipal. Marcelo esteve lá para defender a proposta. Agradeceu aos vereadores e ao prefeito. E sabe que a lei é só o começo.
A lei existe, o dinheiro não. Não há verba destinada à obra. A associação pretende contratar o projeto arquitetônico e buscar recursos no Ministério da Cultura, em Brasília. Enquanto isso, o Memorial existe só no papel.
O que ele vai contar ainda está em aberto. Para Glauciene, do CARA, que defende também o projeto de um Centro de Memória, Educação, Pesquisa e Inovação do Césio-137, o espaço não deve ser “de culto ao sofrimento”. “É criar um espaço de conhecimento. Um lugar onde as novas gerações possam compreender o que aconteceu, aprender sobre prevenção e segurança e, principalmente, conhecer as pessoas por trás dessa história”, diz. O tenente-coronel Vanderlei, que acha que os locais do acidente deveriam ser mais valorizados, também defende um museu.
O historiador Yussef Campos lembra que memoriais podem servir a quem os propõe mais do que a quem homenageiam. “O grande legitimador das políticas públicas sobre e pela memória é, nesse caso, quem lembra. Não adianta uma determinação de cima para baixo sem que haja escuta”, afirma. A saída, para ele, é a participação efetiva das vítimas na elaboração do projeto.
Se o Memorial for construído e as vítimas continuarem sem reparação, diz Yussef, a memória terá sido usada “apenas como capital simbólico para a política partidária”, “vazia de sentido para os acidentados”. Para ele, o reconhecimento real só virá com a elaboração coletiva do trauma, “com a reparação de quem as sofreu e a responsabilização de quem as cometeu”. E, quase quatro décadas depois, ele acha que a lembrança ainda está recalcada. “Precisamos encarar a ferida de frente.”
Marcelo promete que a associação não vai ficar de fora desta vez, como ficou da série. “Apesar de todos os esforços feitos por parte do governo para apagar essa história, nós, como associação, fatalmente não deixaremos que isso aconteça”, diz. Em agosto de 2027, a AvCésio terá nova eleição, que ele espera que traga “sangue novo”. Os planos incluem uma sede, uma casa de apoio, o memorial, o museu. “São parte da história desses pacientes, são parte da minha história.”
Lourdes quer que o Memorial mostre que a história não é só da família dela, mas de todos os goianienses. “É uma história nossa”, diz. “Não é boa, mas tem que ser vista.”
Donizeth tem pressa por outro motivo. Aos 62 anos, com oito infartos no histórico, sabe que os sobreviventes não vão estar sempre lá para contar o que viveram, nem para corrigir as versões dos outros. O Memorial, para ele, é a forma de garantir que a história continue sendo contada também quando não houver mais quem a tenha vivido.
“Eu não sei se eu vou estar vivo amanhã pra te dar essas informações”, diz. “Mas o memorial vai tá aí.”
Donizeth Rodrigues de Oliveira
Meia-vida
40,685935%da atividade original do césio-137 de 1987 ainda resta, desde 13 de setembro de 1987.
Dez meias-vidas, contadas de 1987, terminam por volta de 2289. Restará cerca de 0,1%.
Calculado em 3 de novembro de 2026. Cálculo físico ilustrativo: não é uma medição dos locais. A meia-vida é uma constante do césio-137; é o único número desta reportagem que não vem do texto.